Com as redes sociais a dominarem tantos aspectos das nossas vidas, é difícil ignorar o impacto que elas têm em como vemos o mundo e no que é considerado normal.
Quer você perceba ou não, elas podem moldar de forma dominante o que você considera desejável ou aceitável. Podem influenciar sua carreira, seus relacionamentos ou até mesmo como você passa seu tempo livre.
De muitas maneiras, as redes sociais funcionam como uma lente, muitas vezes distorcida, mostrando apenas uma versão curada da vida das pessoas. Elas normalizam certos comportamentos e estilos de vida ao fazê-los parecer rotineiros e glamorosos, o que aumenta seu apelo.
Às vezes, elas até fazem parecer inevitável. Por exemplo, ao rolar feeds cheios de “rotinas matinais às 5 h ou 6 h” perfeitamente editadas ou hábitos da chamada “that girl”, pode parecer que, para ter sucesso, todos devem viver assim. Também pode dar a impressão de que essa é uma rotina normal, fazendo com que manhãs imperfeitas ou momentos de descanso pessoal pareçam opções inválidas.
Essencialmente, sua percepção se torna fortemente moldada por todo o conteúdo que você consome. A exposição constante a essas imagens polidas pode distorcer seu senso do que é normal, fazendo comportamentos extremos parecerem ordinários.
No geral, as redes sociais criam a ilusão de que essas escolhas são o caminho padrão que todos devem seguir. Na realidade, muitos desses comportamentos popularizados não são tão normais ou universais quanto parecem.
Aqui estão três ideias prejudiciais que as redes sociais glamorizam como normais:
- Monetizar Seus Hobbies
Os hobbies existem por um motivo simples: são uma fonte de alegria e ajudam a relaxar. Permitem recarregar-se mental e emocionalmente. Pesquisas mostram consistentemente que hobbies ajudam a reduzir o estresse, diminuir sintomas de ansiedade e depressão e melhorar a satisfação geral com a vida, oferecendo espaço para reconectar-se consigo mesmo.
No entanto, as redes sociais mudaram essa narrativa. Popularizou-se a ideia de que todo hobby deve eventualmente gerar dinheiro. Influenciadores mostram “side hustles”, ideias de como vender produtos feitos artesanalmente ou histórias de pessoas que transformaram arte, escrita ou artesanato em renda extra.
Parece que monetizar sua paixão não é apenas uma opção, mas o passo natural seguinte, insinuando que você pode estar desperdiçando uma mina de ouro se não fizer isso.
Um estudo de 2021 publicado no PLOS One desafia essa narrativa. Pesquisadores compararam comunidades com diferentes níveis de monetização. Surpreendentemente, as comunidades menos monetizadas apresentaram altos níveis de felicidade, comparáveis aos de países ricos. À medida que a monetização aumentava, a fonte de felicidade mudava de prazeres simples e experiências pessoais para factores sociais e econômicos.
Isso não significa que monetizar hobbies seja errado. Para algumas pessoas, pode ser ideal, empoderador e até financeiramente vantajoso. Compartilhar sua arte ou hobby online pode conectar você a comunidades e criar oportunidades.
Mas é importante lembrar que monetização não é o único nem o principal propósito de um hobby. Você não precisa medir sua paixão pelo dinheiro que gera ou pelos likes que recebe. Hobbies devem enriquecer, não esgotar você pela pressão de aperfeiçoamento. Se seu hobby serve apenas para relaxar e se sentir vivo, isso já é suficiente. E se reconhecimento vier como consequência, que seja apenas um bônus, não um parâmetro de valor pessoal.

- Viajar Constantemente
Viagem é celebrada por sua capacidade de refrescar a mente, ampliar perspectivas e aumentar a satisfação com a vida. Conhecer novos lugares e culturas pode estimular a criatividade e o crescimento pessoal. Mesmo pequenas viagens ou escapadas locais podem proporcionar uma reinicialização mental, permitindo que as pessoas retornem à rotina revigoradas.
No entanto, as redes sociais transformaram a viagem de uma experiência pessoal em um espetáculo público. Isso contribuiu para o fenômeno chamado de “dismorfia de viagem” — a sensação de que você não viu o suficiente do mundo em comparação com os outros.
Uma pesquisa recente com dois mil adultos nos EUA revelou que quase sete em cada dez americanos sentem isso. Menos da metade (48%) está satisfeita com suas viagens ao longo da vida. Conteúdos de amigos, familiares e influenciadores foram apontados como factores importantes.
A geração Z foi especialmente impactada: 47 por cento disseram que conteúdo de influenciadores contribuiu para essa sensação, e mais da metade sentiu-se “atrasada” na vida.
Além disso, estudos mostram que viajar mais nem sempre significa mais felicidade. A satisfação emocional inicialmente aumenta com mais viagens, mas diminui quando as viagens se tornam frequentes, levando à insensibilidade emocional. Experiência e novidade nas viagens podem ajudar a reduzir essa sensação.
As redes sociais podem dar a impressão de que todos devem estar constantemente em movimento. No entanto, os benefícios reais vêm de experiências significativas para você, não do número de destinos visitados ou da aparência fotogênica da viagem online. Cada pessoa tem seu próprio ritmo; priorize prazer e presença em vez de perfeição ou quantidade.
- Largar o Emprego Para Ser ‘Livre’
Hoje, a liberdade muitas vezes é retratada como deixar o emprego tradicional 9h–17h para seguir uma vida de empreendedorismo, viagens ou o chamado “soft living”. Feeds mostram influenciadores com escritórios esteticamente curados e horários flexíveis, enfatizando a emoção de ser seu próprio chefe. O trabalho convencional é visto como restritivo.
As redes sociais amplificam a “rebelião da cultura do hustle”. Um emprego padrão é apresentado como sufocante. Histórias de pessoas que largam o trabalho para perseguir paixões são vistas como metas aspiracionais. A pressão para imitar esses estilos de vida pode dar a impressão de que permanecer em um emprego tradicional é fracasso ou escolha errada.
No entanto, pesquisas mostram que trabalho significativo não exige largar tudo. É possível criar realização por meio do “job crafting”, ou seja, moldando funções, tarefas e mentalidade para atender necessidades psicológicas. Autonomia e oportunidades de moldar o trabalho são caminhos directos para satisfação.
Liberdade e realização não exigem abandonar tudo. Deixar um emprego pode ser válido, mas deve ser uma decisão consciente, considerando estabilidade financeira e riscos. O objectivo é criar experiências significativas e exercer controlo sobre trabalho e vida, não actos extremos por validação social.
O essencial é honrar sua experiência individual em vez de seguir o que parece “normal” nas redes sociais. Escolhas que funcionam para você são as que realmente importam, mesmo que não pareçam ideais para os outros.
Fonte: forbes.com.br

