Recentemente, estava a conversar com a minha tia sobre um assunto que, infelizmente, é muito comum nas nossas famílias: as brigas pela herança quando os pais morrem. Falávamos da forma como, muitas vezes, irmãos que cresceram juntos, partilharam a mesma mesa e as mesmas histórias, acabam por se tornar rivais e inimigos por causa de bens que, ironicamente, nem trabalharam para conquistar.
Aquilo fez-me pensar profundamente, o que acontece, ao longo da vida, para que o amor fraternal se perca numa disputa por casas, terrenos ou dinheiro alheio? A verdade é que os conflitos fazem parte da convivência humana, e as famílias angolanas não são excepção. Conflito é uma situação de desacordo ou disputa, onde há diferenças de interesses, opiniões, valores ou necessidades.
Eles podem surgir entre irmãos, entre pais e filhos por questões financeiras e outros. O problema não é a existência do conflito, mas a forma como os resolvemos. Se não aprendemos a resolver disputas de maneira saudável, elas tendem a crescer e, no momento de maior fragilidade como a perda dos pais transformam-se em verdadeiras batalhas emocionais e patrimoniais.
Muitos conflitos começam cedo e de forma aparentemente simples: discussões entre irmãos sobre quem fica com a última bolacha, sobre o que assistir na televisão ou por um brinquedo específico. Embora pequenos, esses atritos são oportunidades para eles aprenderem e nós os pais ensinarmos.
Se os pais não ensinam a lidar com as frustrações, a negociar e a respeitar o outro, a criança cresce a acreditar que “quem grita mais, leva mais” e essa mentalidade persiste na vida adulta. Nas famílias angolanas, existe ainda o peso cultural do respeito pelos mais velhos.

Embora seja um valor precioso, ele pode gerar tensões quando os mais novos questionam normas ou discordam das decisões deles. Sem diálogo, o que poderia ser uma troca saudável entre gerações torna-se um muro de incompreensão. E quando falamos de questões financeiras, o terreno fica ainda mais sensível, a forma como os recursos são distribuídos e as expectativas de contribuição podem gerar ressentimentos.
Em alguns casos, isso culmina em disputas pela herança, revelando que, ao longo da vida, não se cultivou um espírito de cooperação, partilha e justiça.
Em muitos lares, não há planeamento claro ou testamento, a falta de conversas sobre bens e responsabilidades, alimenta desconfianças e mágoas, mas, mais do que um problema legal, é um reflexo de lacunas na educação emocional e na construção do carácter.
E a própria Bíblia nos lembra que “a vida de uma pessoa não consiste na abundância dos bens” (Lucas 12:15), mostra-nos que quando o coração se prende ao material, perde-se facilmente o essencial.
Se não ensinamos os filhos a valorizar as relações acima das coisas, eles chegarão à fase adulta preparados para competir, não para cooperar. Para quebrar esse ciclo, é preciso ensinar a partilhar desde cedo, não apenas brinquedos, mas também responsabilidades e oportunidades, ajudar a criança a perceber que o valor maior está na relação e não no objecto. É igualmente importante falar sobre dinheiro e bens em família, com conversas adequadas à idade que mostrem como gerir recursos e evitar mal-entendidos futuros.
Outro ponto essencial é resolver os conflitos de forma construtiva, incentivar o diálogo com respeito e a capacidade de ceder.
O exemplo de desapego por parte dos pais é também uma forma de ensinar, pois mostra que o afecto, o carácter e a união valem mais do que qualquer bem material.
Por fim, pensar com antecedência e deixar claro como será a partilha dos bens, seja por testamento ou instruções registadas, é um acto de amor que evita disputas e preserva os vínculos familiares.
Os conflitos familiares são inevitáveis, mas podem ser tratados como oportunidades de crescimento. Se queremos que, no futuro, os nossos filhos não se tornem rivais por causa de bens, precisamos de começar agora a cultivar virtudes como justiça, respeito, diálogo e cooperação.
Que tal começar hoje a cultivar um espírito de união entre adultos, e também entre as crianças, adolescentes e jovens? Pequenos gestos de aproximação, conversas abertas e momentos partilhados podem ser o começo de uma nova história familiar, onde o respeito, a empatia e o amor tenham mais valor do que qualquer bem material.
A verdadeira herança não são casas nem terrenos, mas, o carácter, o amor e a união que deixamos. E essas, quando bem construídas, não se perdem e não se dividem, multiplicam-se. O amor é o único bem que, quanto mais repartimos, mais cresce.
Por: Elisângela Chissamba

