Há alguns meses atrás a advogada zambiana Naomi Pilula partilhou uma fotografia nas redes sociais e, em poucos segundos, foi alvo de comentários horríveis e depreciativos. Mas, em vez de se esconder ou apagar a publicação, Naomi respondeu com ousadia: publicou ainda mais fotos, mostrou o seu rosto inteiro, o seu sorriso, o seu nariz, e afirmou: “Eu me amo e me aceito.”
Esse gesto simples, mas profundamente revolucionário, revela algo essencial, precisamos de reaprender a olhar para nós próprios com orgulho, e não através dos olhos de quem nos julga pela aparência física.
Muitos de nós crescemos a ouvir frases que ferem a alma: “nariz de batata”, “preto como carvão”, “és preta, mas com brilho”. Frases que parecem pequenas, mas que pesam como pedras e se entranham na nossa auto-imagem. E pior, essas frases não vêm apenas de estranhos, mas muitas vezes de dentro da própria casa.
Quando a tia diz à sobrinha alisa esse cabelo para ficares mais apresentável, quando a mãe aconselha a filha a casar com um branco para adiantar a raça, quando o pai elogia o filho claro, mas cala diante do mais escuro estamos a ensinar, sem perceber, que a aceitação depende de mudar quem somos.
A verdade é que carregamos uma herança pesada. Séculos de escravidão e colonização ensinaram-nos a associar a pele clara, o cabelo liso e os traços finos ao valor, à inteligência e à beleza. Já a pele escura, o cabelo crespo e o nariz largo foram marcados como defeitos. Essa mentalidade colonizada continua a manifestar-se hoje, nas oportunidades de trabalho, nas relações afectivas, na forma como os professores olham para os alunos, e até nas escolhas das famílias diante da televisão que privilegia rostos claros e cabelos lisos.
Sem nos darmos conta, acabamos por reproduzir esse racismo estrutural dentro das nossas próprias casas e perpetuamos uma visão distorcida da beleza e do valor humano.
As consequências são profundas e dolorosas. Muitos escondem o cabelo natural debaixo de perucas, recorrem a químicos agressivos para “domar” a juba, sonham com cirurgias plásticas para afinar o nariz ou clarear a pele.
Outros recorrem a cremes de branqueamento, deixam de cuidar do cabelo natural ou vivem sob o peso de comentários racistas disfarçados de conselho: não vais desfrisar? Está feio assim, cabelo crespo não pode ficar solto, assim no ar dá mau aspecto. São frases que parecem banais, mas que carregam séculos de rejeição e ensinam, desde cedo, às nossas crianças que aquilo que elas são precisa de ser corrigido.
Esse mesmo racismo enraizado aparece até no modo como olhamos para os nossos próprios filhos. Casais negros sonham em ter filhos mais claros, e quando uma criança nasce de pele escura é recebida, como se fosse um infortúnio. Usamos expressões como “morena”, “mulata”, “minha clarinha”, “bom ventre”, ou frases como “graças a Deus não saiu tão escuro como o pai”. São palavras que parecem elogio, mas que carregam a mensagem dolorosa de que ser negro é sinal de inferioridade, de que a pele escura é um defeito.
O impacto disso nas famílias é devastador. Filhos e filhas crescem a observar esses comportamentos e aprendem que, para serem amados e aceites, precisam de negar ou esconder quem são. É um ciclo de dor, em que adultos feridos, sem querer, passam a mesma ferida para as gerações seguintes.
Mas como ensinar os nossos filhos a se aceitarem se nós, adultos, ainda fugimos de nós próprios? As crianças aprendem muito mais com o que vêem do que com o que ouvem. Uma mãe que assume o seu cabelo natural, um pai que fala com orgulho da sua cor, uma família que valoriza a sua origem oferece uma lição de dignidade que nenhum discurso consegue igualar.
Educar para o amor próprio começa dentro de casa, mudar a linguagem no dia a dia, eliminar piadas e apelidos pejorativos, oferecer livros, filmes e bonecas que reflictam a beleza negra, contar a verdadeira história dos povos africanos, que vai muito além da escravidão: reis, rainhas, sabedoria, cultura e resistência. O caminho da cura começa no reconhecimento. É preciso admitir que carregamos feridas, que herdámos uma mentalidade que ainda nos faz rejeitar o espelho. Só podemos curar aquilo que temos coragem de nomear.
A partir daí, começar a resgatar a espiritualidade, recordar que fomos criados à imagem e semelhança de Deus e que cada traço do nosso corpo tem valor, educar os filhos para questionarem os padrões de beleza impostos e para celebrarem a diversidade como riqueza, não como defeito.
Aceitar-se não significa que não possamos usar perucas, mudar o cabelo ou cuidar da aparência. A diferença está na intenção, quando esses gestos se tornam máscaras para esconder quem somos, estamos a negar a nossa identidade. A verdadeira liberdade nasce quando já não precisamos de fugir do espelho. Aceitar-se é rebelar-se contra uma história que tentou nos convencer de que não éramos suficientes. É um acto de coragem, de cura e de liberdade.
Porque, no fim, não há beleza maior do que viver a verdade de ser exactamente quem Deus nos criou para ser.
Por: Elisângela Chissamba

