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Nossas Heranças

Há perguntas que não podemos continuar a evitar. Por que tantas jovens aceitam relacionar-se com homens casados? Será ingenuidade, carência afectiva ou apenas uma sede antiga de ser vista, escolhida, amada?

E as esposas traídas, que tantas vezes voltam a ferir outras mulheres em vez de olhar para a raiz da dor fazem-no por amor, ou por medo de ficarem sós?

Estas histórias não são casos isolados. São espelhos partidos de uma sociedade ferida. Uma sociedade onde o adultério, a infidelidade e a banalização da família revelam falhas profundas na forma como educamos, como amamos, como mostramos aos filhos o que é o respeito e a verdade.

Muitos homens casam sem compreender o peso da palavra compromisso. Confundem amor com desejo, liberdade com irresponsabilidade, e família com aparência. Vivem a ilusão de que ser livre é não ter limites, mas que liberdade é essa, se não se é capaz de permanecer fiel às próprias escolhas?

E tantas mulheres, cansadas de esperar afecto, aceitam migalhas. Algumas cresceram sem pai presente, sem referências de amor verdadeiro, e aprenderam a se contentar com o pouco que lhes oferecem, como se o amor fosse um luxo reservado a outras.

Há também as que foram moldadas por uma cultura que desculpa o homem e condena a mulher, ouvem desde cedo que “homem é assim mesmo”, e acabam por aceitar o inaceitável como destino.

Mas o comum não é o mesmo que o certo, e o que se repete sem consciência transforma-se em maldição, uma herança emocional que atravessa gerações sem ser questionada.

Precisamos de coragem para olhar para esta realidade de frente. Educar não é apenas garantir escola e comida, mas dar identidade, consciência e raiz. É ensinar os filhos a reconhecerem o próprio valor, mostrar às filhas que não precisam de disputar atenção para merecer amor.

É ensinar aos rapazes que a fidelidade é sinal de força, não de fraqueza, a poligamia pode ter sido parte do nosso passado, mas hoje devemos perguntar: o que nela constrói e o que nela destrói? O que transmite dignidade e o que perpetua dor? Se queremos uma sociedade curada, precisamos de discernir o que vem da tradição e o que vem da ferida.

Quando ouvimos jovens mulheres dizerem “não sou a primeira nem serei a última amante”, percebemos o quanto a dor se tornou normal, o quanto o amor foi substituído por carência, o quanto o corpo foi trocado por migalhas de atenção.

Mas será esse o legado que queremos deixar? Será isso o que desejamos que a próxima geração chame de amor?
O exemplo que damos é a verdadeira herança. Não se ensina fidelidade com discursos, mas com presenças, não se transmite respeito se em casa se vive violência ou indiferença.

Não se educa para o amor se o que os filhos testemunham é desonestidade, frieza e traição. As crianças aprendem naquilo que nos vêem a fazer, na forma como lidamos com o erro, na maneira como pedimos desculpa, na forma como recomeçamos.

Se crescemos feridos e não procuramos cura, acabamos por passar adiante a mesma dor, ainda que sem querer. Adultos feridos geram filhos feridos, a menos que escolham curar-se.

Cuidar de nós é uma forma de proteger os nossos filhos de dores que não lhes pertencem.

Também é tempo de falar com verdade e ternura, falar sobre o amor, o corpo, o desejo, a fidelidade. Porque quando o silêncio se instala, os filhos aprendem fora, com o mundo, e o mundo ensina mal.

Ensina que amor é posse, que prazer é poder, que infidelidade é normal. Mas o amor verdadeiro é compromisso, respeito e liberdade. Quando uma filha cresce a ouvir “tu és amada, tu és suficiente, a tua vida tem propósito”, dificilmente aceitará ser usada.

Quando um filho vê o pai a honrar a mãe, aprende que fidelidade não é prisão, mas sim maturidade.

As verdadeiras heranças não estão nas casas nem no dinheiro que podemos deixar, estão nas marcas invisíveis: no tom com que falamos, na forma como ouvimos, na presença que deixamos.

Estão nas verdades que sustentamos e nas mentiras que quebramos, se quisermos interromper o ciclo de traição, de abandono e de feridas emocionais, o caminho começa dentro de casa, na forma como amamos, na coragem de mudar, na humildade perdoar e pedir perdão.

Educar para o amor é educar para a responsabilidade, para a liberdade que respeita o outro, para a maturidade que permanece quando o amor é posto à prova, é ensinar que amar não é possuir, mas cuidar; não é usar, mas honrar; não é dominar, mas crescer juntos.

Quando o amor se fere, não é apenas um casal que sofre é toda a comunidade que sangra. E o sangue dessas feridas corre por gerações, até que alguém decida quebrar esse ciclo.

Que sejamos nós essa geração a que decide amar de forma inteira, curar o que herdou e deixar como legado um amor que liberta, sustenta e dá vida.

Por: Elisângela Chissamba

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