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Órfãos de Pais Vivos

Quando falamos sobre saúde pública pensamos apenas em hospitais, medicamentos, vacinas e saneamento básico, mas esquecemo-nos de que a saúde de uma sociedade inteira começa dentro de casa, nos vínculos que criamos e nas responsabilidades que assumimos.

A maior epidemia silenciosa que enfrentamos hoje não aparece em relatórios médicos: é a fuga à paternidade e a negligência com os filhos.

Estamos a gerar vidas sem carregar o peso sagrado de as acompanhar, como se ter filhos fosse apenas um ritual social para provar que não somos “mbacos”, evitar rótulos ou cumprir expectativas culturais. Pessoas são geradas em encontros de uma noite, em relações frágeis ou casamentos que já estão a implodir, e depois abandonamos as crianças como se fossem sobras de decisões mal pensadas, condenando-as a crescerem órfãs de pais vivos.

É chocante perceber que, em pleno século XXI, um homem precise de ser arrastado para o tribunal, pressionado por notificações, ameaçado pela lei, para cumprir aquilo que deveria ser natural, cuidar da vida que ele próprio trouxe ao mundo. Isso é falta de carácter. E quando isso se torna comum, é sinal de que estamos a falhar como sociedade. Como chegámos ao ponto em que ser pai deixou de ser honra para se tornar peso, enquanto ser mãe se transforma num fardo solitário carregado em silêncio?

É verdade que o apoio financeiro é essencial, mas pensar que o dinheiro substitui a presença é uma das maiores ilusões desta geração. Não basta pagar a escola se nunca se senta ao lado para ajudar nas tarefas, não basta garantir alimentação se nunca se partilha uma refeição quente com conversas e afecto, não adianta comprar roupa se não existe abraço, olhar atento, palavra de apoio ou gesto de ternura.

Muitos pais acreditam que a pensão de alimentos os absolve, mas não percebem que os filhos não precisam apenas de dinheiro, precisam e querem o cuidado. E muitas mães, feridas pela rejeição, transformam a dor em muro, proíbem a relação entre o pai e os filhos, usam as crianças como escudo emocional, confundem protecção com punição. A mágoa dos adultos acaba por aprisionar o coração da criança, que cresce a carregar um conflito que não é dela.

E nem sempre o abandono é físico. Há pais que chegam a casa todos os dias, mas há anos que não chegam aos filhos. Estão presentes no espaço, mas ausentes na vida. Trabalham, pagam contas, levam e trazem da escola, a igreja, mas não tocam a alma dos filhos, não perguntam, não ouvem, não abraçam. São estranhos dentro do próprio lar, como se a sua presença fosse apenas uma formalidade.

Esse silêncio afectivo fere tanto quanto a ausência total. E é assim que crescem crianças com fome de validação, com sede de afecto, vulneráveis a qualquer mão que prometa atenção, porque nunca conheceram o calor emocional de casa. São vidas que aprendem a mendigar amor porque nunca o receberam de forma natural.

Quando olhamos mais fundo, percebemos que isto não é um problema isolado, mas um ciclo geracional que se repete como uma ferida aberta. Muitos que hoje fogem da responsabilidade cresceram exactamente da mesma forma e, por não terem recebido cuidado, não sabem dar. Normalizam o abandono e dizem “eu também cresci assim e não morri”, esquecendo-se de que sobreviver não é sinónimo de estar bem.

A dor não tratada torna-se padrão, e padrões não curados transformam-se em maldição familiar. Porém, ter crescido sem pai ou mãe, não deve ser desculpa para repetir a história. Deve ser um alerta para a necessidade urgente de cura.

Mas então o que podemos fazer como sociedade para travar esta epidemia emocional? Primeiro, precisamos de falar sobre parentalidade antes que a mesma aconteça. Educação consciente, responsabilidade emocional e maturidade relacional devem ser ensinadas com o mesmo rigor com que ensinamos matemática, geografia e ciências. Gerar um filho não é um acto biológico qualquer, é um compromisso de eterno, uma missão de vida.

Segundo, precisamos de comunidades, famílias, igrejas, vizinhança, escolas que acolham pais feridos, mães cansadas, jovens perdidos, e ofereçam apoio emocional e orientação. Só quem se cura consegue criar com saúde. Terceiro, precisamos de uma justiça que não se limite a cobrar dinheiro, mas que defenda o direito da criança de ter o pai e a mãe presentes, que incentive a convivência saudável e desarme guerras emocionais em que os filhos são transformados em troféus ou armas.

A verdade é dura, mas libertadora, muitos estão a brincar com a vida, tratam os filhos como símbolos sociais, justificações ou escudos. Esquecem-se de que cada criança é um ser humano completo, com dignidade, com futuro e com necessidades que vão muito além de bens materiais.

Quem foge da responsabilidade parental não falha apenas como pai ou como mãe falha como ser humano. E como nos lembra a Palavra em 1 Timóteo 5:8, cuidar da família não é uma opção é fundamento de carácter. Negligenciar isso é negar a própria humanidade.

Por: Elisângela Chissamba

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