Sob o tema “Mitos e Verdades sobre a História de Luanda”, a Rádio ZFM realizou, nesta segunda-feira, 26, um programa especial alusivo ao 25 de Janeiro, data que assinala a fundação da cidade de Luanda.
Conduzido pelo jornalista Miguel Manuel, o programa contou com a presença do filósofo e pesquisador Arsénio António, que abordou a existência de uma estrutura social e política organizada pelos ancestrais antes da chegada dos portugueses.
Segundo o convidado, “já existia uma base militar muito bem organizada sob a liderança de Mbande Ngola Kiluange, que resistiu à primeira tentativa de Bartolomeu Dias de impor o cristianismo e o catolicismo”.
Para Arsénio António, essa segurança cultural foi um factor determinante na organização do antigo Reino do Ndongo.Com a derrota de Bartolomeu Dias e as sucessivas tentativas de António Dias, a ambição do colonialismo português de ocupar Luanda e África, de forma geral, intensificou-se, preparando o caminho para a actuação de Paulo Dias de Novais.
Naquela época, Luanda já praticava uma economia ligada ao comércio marítimo, facto que reforçava o interesse dos colonizadores em derrotar Mbande Ngola Kiluange, então governante, com o objectivo de, posteriormente, tomar posse de todo o território.
Arsénio António descartou ainda a possibilidade de Paulo Dias de Novais ser o fundador da cidade de Luanda, sublinhando que a sua existência já era mencionada nos relatos de Bartolomeu Dias e do seu pai, António Dias.
Por sua vez, Filipe Vidal, antropólogo e historiador, acrescentou reflexões sobre algumas questões espirituais, nomeadamente a Kianda, que ao longo do tempo foram sendo substituídas por outras crenças.
Relativamente à urbanização de Luanda, muitas vezes apresentada como de influência ocidental, o historiador explicou que já existia um modelo próprio de urbanismo, com destaque para os estados territoriais de Mbanza, onde se localizavam o centro político e as diferentes zonas da cidade.
Tratava-se de uma arquitectura construída com materiais naturais, organizada em zonas habitacionais bem definidas. Segundo o historiador, o colono português encontrou uma cidade já estruturada e organizada.
Na era colonial, Luanda viveu uma forte divisão social baseada na cor da pele, em que os negros não podiam circular livremente na Cidade Alta, sendo permitida a sua presença apenas até às 12 horas, sob repressão e violência física.
O também professor referiu que, comparativamente ao período colonial, Luanda desenvolveu-se de forma mais acelerada nos últimos 50 anos, embora continue a enfrentar vários desafios, com destaque para o saneamento básico e outras infra-estruturas essenciais.
Filipe Vidal lamentou ainda o facto de, actualmente, a cidade carecer de espaços verdes.“Não temos espaços verdes nem campos de futebol. Precisamos criar mais oportunidades para os jovens. Luanda precisa resgatar os seus valores”, concluiu.

