{"id":10748,"date":"2026-03-03T07:19:35","date_gmt":"2026-03-03T07:19:35","guid":{"rendered":"https:\/\/zango.co.ao\/?p=10748"},"modified":"2026-03-03T07:19:37","modified_gmt":"2026-03-03T07:19:37","slug":"sera-que-a-banca-cresceu-com-a-retirada-do-dinheiro-vivo-na-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zango.co.ao\/index.php\/2026\/03\/03\/sera-que-a-banca-cresceu-com-a-retirada-do-dinheiro-vivo-na-rua\/","title":{"rendered":"SER\u00c1 QUE A BANCA CRESCEU COM A RETIRADA DO DINHEIRO VIVO NA RUA?"},"content":{"rendered":"\n<p>Houve um tempo, n\u00e3o muito distante, em que o dinheiro vivo circulava em Angola com uma intensidade quase inquietante. Notas dobradas nos bolsos, sacos pl\u00e1sticos recheados de kwanzas, pagamentos feitos exclusivamente em numer\u00e1rio. At\u00e9 os Sal\u00e1rios eram pagos a m\u00e3o. A economia respirava em papel. O volume de dinheiro fora do sistema banc\u00e1rio era t\u00e3o elevado que assustava os analistas e desafiava qualquer tentativa de controlo monet\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois vieram as reformas. Restri\u00e7\u00f5es ao levantamento de grandes quantias, incentivo aos pagamentos electr\u00f3nicos, expans\u00e3o dos Terminais de Pagamento Autom\u00e1tico (TPA), maior vigil\u00e2ncia sobre fluxos financeiros. O dinheiro come\u00e7ou a regressar aos bancos. As estat\u00edsticas passaram a mostrar crescimento dos dep\u00f3sitos, aumento de activos, melhoria dos r\u00e1cios de liquidez.<\/p>\n\n\n\n<p>A BANCA CRESCEU.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a pergunta que ecoa \u00e9 simples e desconfort\u00e1vel: cresceu porque a economia produziu mais ou cresceu porque o dinheiro deixou de circular fora do sistema?<\/p>\n\n\n\n<p>Se o dinheiro agora circula maioritariamente na economia formal, por que raz\u00e3o a informalidade continua t\u00e3o viva, t\u00e3o resiliente, t\u00e3o dominante em alguns sectores?<\/p>\n\n\n\n<p>Basta visitar qualquer mercado informal para perceber que a realidade \u00e9 mais complexa do que os relat\u00f3rios sugerem. Quase todas as vendedores t\u00eam TPA. Se n\u00e3o tiverem, h\u00e1 sempre um agente informal banc\u00e1rio por perto, algu\u00e9m com uma m\u00e1quina multicaixa na m\u00e3o, disposto a fazer a ponte entre o cliente e o dinheiro vivo, mediante uma comiss\u00e3o percentual. O cliente transfere, o agente entrega notas. A economia adapta-se. Formaliza-se parcialmente, mas preserva a sua l\u00f3gica pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 um fen\u00f3meno curioso. A tecnologia banc\u00e1ria penetrou no mercado informal, mas o mercado informal n\u00e3o desapareceu. Pelo contr\u00e1rio, modernizou-se. Hoje h\u00e1 peixeiras que aceitam cart\u00e3o, vendedores ambulantes que operam com transfer\u00eancia instant\u00e2nea ( EXPRESS), jovens empreendedores digitais a vender nas redes sociais com pagamento electr\u00f3nico. A informalidade deixou de ser sin\u00f3nimo de aus\u00eancia de sistema banc\u00e1rio. Ela agora convive com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>ENT\u00c3O ONDE EST\u00c1, DE FACTO, o CRESCIMENTO DA BANCA?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma parte vem, sem d\u00favida, do aumento de dep\u00f3sitos provocado pela redu\u00e7\u00e3o do dinheiro vivo na rua. Outra parte vem da expans\u00e3o dos servi\u00e7os digitais, das comiss\u00f5es, das transfer\u00eancias e da intermedia\u00e7\u00e3o financeira. Mas h\u00e1 uma quest\u00e3o que precisa ser colocada com serenidade: ter\u00e1 a banca privilegiado o financiamento ao Estado, atrav\u00e9s da compra de t\u00edtulos do Tesouro, em detrimento do financiamento \u00e0 economia produtiva?<\/p>\n\n\n\n<p>Emprestar ao Governo \u00e9 seguro. O risco \u00e9 menor, o retorno \u00e9 previs\u00edvel, a garantia \u00e9 soberana. Financiar pequenas e m\u00e9dias empresas exige an\u00e1lise, acompanhamento, exposi\u00e7\u00e3o ao risco real do mercado. Entre a seguran\u00e7a e o risco, muitos bancos escolhem a estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso ajuda a explicar um paradoxo. O sistema banc\u00e1rio fortalece-se, mas a economia real n\u00e3o acelera na mesma propor\u00e7\u00e3o. A informalidade mant\u00e9m-se alta porque milhares de cidad\u00e3os continuam fora do cr\u00e9dito estruturado, fora do financiamento acess\u00edvel, fora das oportunidades formais de crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A informalidade n\u00e3o \u00e9 apenas uma escolha cultural. Muitas vezes \u00e9 uma resposta \u00e0 burocracia, \u00e0 carga fiscal, \u00e0 dificuldade de acesso ao cr\u00e9dito e \u00e0 complexidade regulat\u00f3ria. Quando abrir e manter um neg\u00f3cio formal se torna caro e lento, o cidad\u00e3o opta pelo caminho mais simples para sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o verdadeiro desafio n\u00e3o seja apenas retirar dinheiro vivo da rua. Talvez seja criar condi\u00e7\u00f5es para que o dinheiro, j\u00e1 dentro do sistema banc\u00e1rio, circule para a produ\u00e7\u00e3o, para a agricultura, para a ind\u00fastria, para as pequenas empresas que empregam a maioria dos angolanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas sugest\u00f5es imp\u00f5em-se de forma quase natural. Expandir linhas de cr\u00e9dito espec\u00edficas para o sector produtivo com garantias partilhadas pelo Estado. Reduzir taxas de juro para actividades estrat\u00e9gicas. Simplificar processos de formaliza\u00e7\u00e3o empresarial. Incentivar a literacia financeira nos mercados informais, transformando vendedores resilientes em microempres\u00e1rios estruturados. Criar programas de microcr\u00e9dito verdadeiramente acess\u00edveis, com acompanhamento t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p>A banca cresceu, sim. Mas crescimento financeiro n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, desenvolvimento econ\u00f3mico. O sistema tornou-se mais l\u00edquido, mais digital, mais controlado. No entanto, enquanto a economia real n\u00e3o sentir esse crescimento no acesso ao financiamento e na cria\u00e7\u00e3o de oportunidades, a informalidade continuar\u00e1 a florescer, adaptando-se a cada nova regra.<\/p>\n\n\n\n<p>O dinheiro pode ter regressado aos bancos. A quest\u00e3o agora \u00e9 saber se os bancos ir\u00e3o devolv\u00ea-lo \u00e0 economia na forma de investimento produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se isso acontecer, n\u00e3o apenas a banca crescer\u00e1. Crescer\u00e1 tamb\u00e9m o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Por: Gaspar Jo\u00e3o<br>Jornalista<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo, n\u00e3o muito distante, em que o dinheiro vivo circulava em Angola com uma intensidade quase inquietante. 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