{"id":7736,"date":"2025-09-04T08:12:22","date_gmt":"2025-09-04T08:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/zango.co.ao\/?p=7736"},"modified":"2025-09-04T08:12:24","modified_gmt":"2025-09-04T08:12:24","slug":"a-escola-nao-e-um-deposito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zango.co.ao\/index.php\/2025\/09\/04\/a-escola-nao-e-um-deposito\/","title":{"rendered":"A Escola n\u00e3o \u00e9 um dep\u00f3sito!"},"content":{"rendered":"\n<p>No nosso tempo a professora entrava na sala e nos levant\u00e1vamos para cumprimentar, em un\u00edssono e em voz alta diz\u00edamos: &#8220;bom dia senhora professora. Havia respeito, n\u00e9?&#8221; \u2014 Yha, quer\u00edamos lhe deixar orgulhosa e feliz\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Essa conversa, que ouvimos nos nossos encontros com amigos e familiares, diz muito sobre o abismo que se abriu entre as gera\u00e7\u00f5es. O respeito pelos professores, que antes parecia natural, hoje precisa ser exigido, imposto e for\u00e7ado, ainda assim, raramente \u00e9 dado. O que \u00e9 que aconteceu? Quando \u00e9 que a escola deixou de ser espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o e virou um dep\u00f3sito? Quando \u00e9 que os pais e professores passaram de aliados a rivais?<\/p>\n\n\n\n<p>Setembro chegou. As mochilas bem bonitas e preparadas, os cadernos forrados, as lancheiras organizadas, batas e uniformes, tudo novo e engomadinho. Mas dentro das casas, e dentro das nossas crian\u00e7as, o qu\u00ea que se arrumou?<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 um cansa\u00e7o que n\u00e3o se v\u00ea na lista de material. Crian\u00e7as que mal descansaram nas f\u00e9rias, que vivem com os olhos presos a telas, ou em campos de f\u00e9rias, que n\u00e3o sabem o que \u00e9 o t\u00e9dio, e que acordam todos os dias com o peso de \u201cse comportarem bem\u201d, \u201ctirarem boas notas\u201d, \u201cn\u00e3o darem trabalho\u201d. Chegam \u00e0 escola exaustas. Sem presen\u00e7a emocional, sem energia e sem \u00e2nimo, e diante delas, professores que j\u00e1 deram tudo\u2026 e continuam a receber quase nada. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"271\" height=\"186\" src=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/images-1-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7739\" style=\"width:344px;height:auto\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>S\u00e3o profissionais que chegam cedo, voltam tarde, corrigem provas, se preocupam ou fingem tamb\u00e9m que o fazem, tentam manter a calma diante de comportamentos cada vez mais desafiadores, e ainda assim, s\u00e3o julgados como se fossem inimigos dos pais e obst\u00e1culos para os filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas por tr\u00e1s dessas estat\u00edsticas invis\u00edveis, h\u00e1 algo que esquecemos: cada crian\u00e7a \u00e9 \u00fanica. N\u00e3o s\u00e3o apenas alunos enfileirados em carteiras iguais, s\u00e3o seres com ritmos, talentos, fragilidades e for\u00e7as pr\u00f3prias. Algumas florescem no sil\u00eancio, outras no movimento, umas precisam de firmeza, outras de encorajamento. Quando tratamos todas como se fossem c\u00f3pias de uma mesma forma, sufocamos aquilo que poderia ser a sua maior riqueza: a singularidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O pior \u00e9 que h\u00e1 pais que falam mal dos professores \u00e0 frente das crian\u00e7as, desautorizam toda e qualquer interven\u00e7\u00e3o, ignoram o esfor\u00e7o e desprezam a voca\u00e7\u00e3o. E os filhos aprendem que o professor n\u00e3o merece respeito. Hoje, adolescentes se acham no direito de fazer piadas da apar\u00eancia, da orienta\u00e7\u00e3o, das roupas, at\u00e9 da vida amorosa dos seus professores, altas gargalhadas na cara do professor, despreza-se o educador e tudo isso \u00e9 tratado como se fosse \u201cnatural da idade\u201d. Mas n\u00e3o \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 sintoma de uma sociedade que abandonou a ideia de respeito como valor inegoci\u00e1vel. \u00c9 fruto de fam\u00edlias que esqueceram que a educa\u00e7\u00e3o come\u00e7a dentro de casa, e que o professor n\u00e3o \u00e9 bab\u00e1, n\u00e3o \u00e9 terapeuta, n\u00e3o \u00e9 salvador. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 parte de uma miss\u00e3o colectiva que come\u00e7a com os pais, enquanto isso, a escola se transforma num dep\u00f3sito. Onde se colocam as crian\u00e7as para ficarem bem ocupadas, enquanto n\u00f3s adultos \u201ccuidamos da vida\u201d. E, ao mesmo tempo, a escola vira um campo de batalha: onde o professor luta por autoridade, o aluno por aten\u00e7\u00e3o, os pais por controlo e ningu\u00e9m ouve.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio disso tudo, a inf\u00e2ncia se perde, a adolesc\u00eancia se embrutece e os adultos de amanh\u00e3 est\u00e3o a ser formados por estruturas fr\u00e1geis, rela\u00e7\u00f5es rasas e aus\u00eancia de responsabilidade m\u00fatua. A escola perdeu o seu lugar, a figura do professor perdeu a sua honra e o que era para ser parceria, virou competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda \u00e9 poss\u00edvel resgatar. Tudo come\u00e7a com uma escolha corajosa: voltar a olhar para a escola como uma extens\u00e3o da casa e para o professor, como um aliado no cuidado n\u00e3o s\u00f3 f\u00edsico, mas da alma dos nossos filhos. Isso exige humildade, rever discursos, parar de transferir culpas e come\u00e7ar a assumir responsabilidades. Nenhuma crian\u00e7a cresce saud\u00e1vel quando os pais e os professores est\u00e3o em guerra, nenhum aluno aprende verdadeiramente num ambiente onde quem ensina est\u00e1 ferido, e quem aprende est\u00e1 sobrecarregado.<\/p>\n\n\n\n<p>Resgatar o respeito \u00e0 escola e ao professor n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um apelo \u00e0 disciplina, mas tamb\u00e9m um convite a olhar cada crian\u00e7a como ela \u00e9, com a sua forma e a sua firmeza. O professor n\u00e3o ensina a um grupo homog\u00e9neo, mas a um mosaico de vidas, cada uma com um brilho e uma necessidade. E quando pais e professores reconhecem isso juntos, nasce a verdadeira parceria: a que valoriza a diversidade e n\u00e3o apaga a individualidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"400\" src=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/aluno-negro-.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-7741\" style=\"width:520px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/aluno-negro-.webp 800w, https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/aluno-negro--300x150.webp 300w, https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/aluno-negro--768x384.webp 768w, https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/aluno-negro--716x358.webp 716w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Este Setembro, mais do que cadernos novos, as fam\u00edlias precisam de um novo olhar, mais do que um hor\u00e1rio certo, precisamos de cultivar a presen\u00e7a, mais do que cobran\u00e7a, precisamos de construir pontes. A pergunta n\u00e3o \u00e9 \u201cem que classe o seu filho est\u00e1?\u201d, mas sim: em que estado emocional ele chega \u00e0 escola? E que tipo de rela\u00e7\u00e3o voc\u00ea est\u00e1 a ajudar a construir entre ele e aqueles que o educam todos os dias?<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda d\u00e1 tempo de recuperar a beleza do gesto que faz\u00edamos sem ningu\u00e9m mandar: levantar-se quando o professor entrava na sala. N\u00e3o por obriga\u00e7\u00e3o, mas por respeito, por amor ao saber e por gratid\u00e3o a quem ensina. <\/p>\n\n\n\n<p>E para que isso seja poss\u00edvel de forma sustent\u00e1vel, \u00e9 urgente criar pol\u00edticas que permitam aos pais estarem mais presentes, como licen\u00e7as flex\u00edveis e remuneradas para participa\u00e7\u00e3o em reuni\u00f5es e actividades escolares, hor\u00e1rios de trabalho adapt\u00e1veis para momentos importantes da vida acad\u00e9mica dos filhos, parcerias entre escolas, fam\u00edlias e empresas para projectos de leitura, mentorias e oficinas, iniciativas comunit\u00e1rias que unam fam\u00edlias, professores, igrejas, associa\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es locais em prol da educa\u00e7\u00e3o, e campanhas nacionais que reforcem o valor e a honra do professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando empresas, governo, comunidades e fam\u00edlias se comprometem juntos, a escola deixa de ser um dep\u00f3sito e passa a ser um lugar de encontro, de respeito e de constru\u00e7\u00e3o de futuro. Um espa\u00e7o onde professores e pais voltam a ser aliados, onde cada crian\u00e7a \u00e9 vista na sua singularidade e onde a educa\u00e7\u00e3o recupera a sua dignidade. Porque educar n\u00e3o \u00e9 apenas transmitir conhecimento, \u00e9 formar pessoas, curar gera\u00e7\u00f5es e preparar cora\u00e7\u00f5es para o amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Elis\u00e2ngela Chissamba<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No nosso tempo a professora entrava na sala e nos levant\u00e1vamos para cumprimentar, em un\u00edssono e em voz alta diz\u00edamos: &#8220;bom dia senhora professora. 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