{"id":8071,"date":"2025-09-18T08:02:00","date_gmt":"2025-09-18T08:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/zango.co.ao\/?p=8071"},"modified":"2025-09-18T08:19:15","modified_gmt":"2025-09-18T08:19:15","slug":"onde-vao-os-nossos-choros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zango.co.ao\/index.php\/2025\/09\/18\/onde-vao-os-nossos-choros\/","title":{"rendered":"Onde V\u00e3o os Nossos Choros?"},"content":{"rendered":"\n<p>Cala j\u00e1, n\u00e3o chora mais, j\u00e1 chega, quem chora \u00e9 feio. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o frases que ouvimos desde cedo, repetidas quase como um refr\u00e3o familiar e social. Dizemos \u00e0s crian\u00e7as quando se magoam, aos adolescentes quando se frustram, aos adultos quando perdem algu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p> Tornou-se quase um instinto autom\u00e1tico, diante das l\u00e1grimas, pedimos sil\u00eancio. Mas ser\u00e1 que nos damos conta do peso destas palavras? Para onde v\u00e3o os choros? Onde se guardam as l\u00e1grimas que nunca deixamos cair?<\/p>\n\n\n\n<p>O choro \u00e9 a primeira linguagem da vida, \u00e9 ele que anuncia ao mundo que um beb\u00e9 nasceu. Antes das palavras, \u00e9 pelo choro que comunicamos fome, frio, medo ou necessidade de colo. <\/p>\n\n\n\n<p>Chorar \u00e9 a forma mais genu\u00edna de expressar a vulnerabilidade humana. Mas, \u00e0 medida que crescemos, essa linguagem \u00e9 abafada. O choro passa a ser visto como fraqueza, como birra, como descontrolo. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"339\" src=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469270.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8077\" srcset=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469270.jpg 576w, https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469270-300x177.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>E, pouco a pouco, aprendemos a engolir as l\u00e1grimas, a esconder a dor, a sorrir, quando na verdade, o peito est\u00e1 a arder e a mente a explodir.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas fam\u00edlias, o impulso de calar o choro \u00e9 comum, n\u00e3o nasce, na maioria das vezes, de maldade, mas sim do desconforto e da falta de recursos emocionais. Um pai que diz \u201cn\u00e3o chores\u201d pode estar, sem perceber, a dizer n\u00e3o sei lidar com a tua dor, n\u00e3o sei o que fazer com as tuas l\u00e1grimas. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma m\u00e3e que amea\u00e7a \u201cse continuares a chorar, vais ver\u201d pode estar apenas a repetir os padr\u00f5es que tamb\u00e9m recebeu, porque, em algum momento da sua vida, tamb\u00e9m lhe disseram que chorar era proibido. <\/p>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que, nesse processo, ensinamos \u00e0s crian\u00e7as e a n\u00f3s pr\u00f3prios que sentir \u00e9 errado, que a vulnerabilidade \u00e9 um sinal de desobedi\u00eancia, que a tristeza deve ser engolida para n\u00e3o incomodar os outros.<br>Mas o que acontece com os choros engolidos? <\/p>\n\n\n\n<p>Eles n\u00e3o desaparecem, o corpo guarda o que a alma n\u00e3o teve permiss\u00e3o de largar. As l\u00e1grimas n\u00e3o derramadas transformam-se em n\u00f3s apertados na garganta, em dores no peito, em noites de ins\u00f3nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornam-se ansiedade, explos\u00f5es de raiva, distanciamento emocional, tornam-se doen\u00e7as que n\u00e3o conseguimos explicar. O sil\u00eancio imposto \u00e0s emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o cura, adoece.<br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"576\" height=\"405\" src=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469272.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8078\" srcset=\"https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469272.jpg 576w, https:\/\/zango.co.ao\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/1000469272-300x211.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>O in\u00edcio do ano lectivo \u00e9 um exemplo pr\u00e1tico. Muitas crian\u00e7as choram ao entrar na escola, especialmente nas primeiras semanas. Em vez de acolher esse medo, muitos pais reagem com frases como cala j\u00e1, olha os outros a te verem, v\u00e3o te rir\u2026 <\/p>\n\n\n\n<p>A inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 m\u00e1, mas o efeito pode ser devastador, a crian\u00e7a aprende a esconder as emo\u00e7\u00f5es, em vez de lidar com elas.<\/p>\n\n\n\n<p><br>E aqui h\u00e1 outro ponto importante, muitos pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o antecipam os acontecimentos, principalmente com as crian\u00e7as mais pequenas. N\u00e3o falam com elas sobre a mudan\u00e7a de rotina, sobre o que significa ir para a escola. <\/p>\n\n\n\n<p>E, quando falam, muitas vezes \u00e9 para amedrontar, a crian\u00e7a, em vez de se preparar, associa o novo espa\u00e7o ao medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 outra forma de fazer. \u00c9 preciso explicar com clareza e consci\u00eancia que a escola n\u00e3o \u00e9 um lugar para ficar para sempre, que no final do dia o pai, a m\u00e3e ou outra pessoa de confian\u00e7a ir\u00e1 busc\u00e1-la. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante visitar a escola antes, falar algumas semanas e dias antes, mostrar a sala, o recreio, os professores, envolver a crian\u00e7a na compra dos materiais, mudar gradualmente a rotina do sono e da alimenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Pequenos gestos de prepara\u00e7\u00e3o que n\u00e3o eliminam o choro, mas diminuem a ang\u00fastia, porque d\u00e3o sentido e previsibilidade \u00e0 novidade.<br>Anos mais tarde, essa mesma crian\u00e7a ser\u00e1 mais capaz de enfrentar mudan\u00e7as, porque aprendeu que sentir medo \u00e9 natural, mas tamb\u00e9m que existem apoios, explica\u00e7\u00f5es e presen\u00e7as que a ajudam a lidar com o novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esteja na hora de um novo paradigma. O de acolher o choro, em vez de o calar. De sentar ao lado da crian\u00e7a que chora no primeiro dia de aulas e dizer:<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil, estou aqui contigo. De abra\u00e7ar o amigo que perdeu algu\u00e9m e, em sil\u00eancio, deixar que as l\u00e1grimas escorram sem pressa. De reconhecer que at\u00e9 os choros \u201cteimosos\u201d, aqueles que parecem provoca\u00e7\u00e3o, escondem necessidades invis\u00edveis como cansa\u00e7o, car\u00eancia e busca por aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As l\u00e1grimas t\u00eam um lugar e um sentido, s\u00e3o a voz da alma quando a boca n\u00e3o consegue falar. Elas lavam o cora\u00e7\u00e3o, aliviam a press\u00e3o interna, criam espa\u00e7o para o recome\u00e7o. Se as sufocarmos, a dor ficar\u00e1 soterrada. <\/p>\n\n\n\n<p>Se as acolhermos, transformar-se-\u00e3o em pontes de afecto, em caminhos de empatia, em lembran\u00e7a de que somos humanos e n\u00e3o m\u00e1quinas.<br>E, no fim, talvez o que mais precisemos seja reaprender a ouvir o choro, deixar que ele exista, dar-lhe espa\u00e7o, trat\u00e1-lo como parte da vida e n\u00e3o como inimigo. <\/p>\n\n\n\n<p>Que possamos ser colo para os nossos filhos, ombro para os nossos amigos, sil\u00eancio seguro para quem sofre. Porque cada l\u00e1grima que encontra acolhimento n\u00e3o pesa, liberta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por: Elis\u00e2ngela Chissamba<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cala j\u00e1, n\u00e3o chora mais, j\u00e1 chega, quem chora \u00e9 feio. S\u00e3o frases que ouvimos desde cedo, repetidas quase como um refr\u00e3o familiar e social. 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