{"id":9442,"date":"2025-11-27T09:04:30","date_gmt":"2025-11-27T09:04:30","guid":{"rendered":"https:\/\/zango.co.ao\/?p=9442"},"modified":"2025-11-27T09:04:31","modified_gmt":"2025-11-27T09:04:31","slug":"a-beleza-de-ser-quem-somos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zango.co.ao\/index.php\/2025\/11\/27\/a-beleza-de-ser-quem-somos\/","title":{"rendered":"A Beleza de Ser Quem Somos"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 alguns meses atr\u00e1s a advogada zambiana Naomi Pilula partilhou uma fotografia nas redes sociais e, em poucos segundos, foi alvo de coment\u00e1rios horr\u00edveis e depreciativos. Mas, em vez de se esconder ou apagar a publica\u00e7\u00e3o, Naomi respondeu com ousadia: publicou ainda mais fotos, mostrou o seu rosto inteiro, o seu sorriso, o seu nariz, e afirmou: \u201cEu me amo e me aceito.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Esse gesto simples, mas profundamente revolucion\u00e1rio, revela algo essencial, precisamos de reaprender a olhar para n\u00f3s pr\u00f3prios com orgulho, e n\u00e3o atrav\u00e9s dos olhos de quem nos julga pela apar\u00eancia f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos de n\u00f3s crescemos a ouvir frases que ferem a alma: \u201cnariz de batata\u201d, \u201cpreto como carv\u00e3o\u201d, \u201c\u00e9s preta, mas com brilho\u201d. Frases que parecem pequenas, mas que pesam como pedras e se entranham na nossa auto-imagem. E pior, essas frases n\u00e3o v\u00eam apenas de estranhos, mas muitas vezes de dentro da pr\u00f3pria casa. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando a tia diz \u00e0 sobrinha alisa esse cabelo para ficares mais apresent\u00e1vel, quando a m\u00e3e aconselha a filha a casar com um branco para adiantar a ra\u00e7a, quando o pai elogia o filho claro, mas cala diante do mais escuro estamos a ensinar, sem perceber, que a aceita\u00e7\u00e3o depende de mudar quem somos.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que carregamos uma heran\u00e7a pesada. S\u00e9culos de escravid\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o ensinaram-nos a associar a pele clara, o cabelo liso e os tra\u00e7os finos ao valor, \u00e0 intelig\u00eancia e \u00e0 beleza. J\u00e1 a pele escura, o cabelo crespo e o nariz largo foram marcados como defeitos. Essa mentalidade colonizada continua a manifestar-se hoje, nas oportunidades de trabalho, nas rela\u00e7\u00f5es afectivas, na forma como os professores olham para os alunos, e at\u00e9 nas escolhas das fam\u00edlias diante da televis\u00e3o que privilegia rostos claros e cabelos lisos. <\/p>\n\n\n\n<p>Sem nos darmos conta, acabamos por reproduzir esse racismo estrutural dentro das nossas pr\u00f3prias casas e perpetuamos uma vis\u00e3o distorcida da beleza e do valor humano.<br>As consequ\u00eancias s\u00e3o profundas e dolorosas. Muitos escondem o cabelo natural debaixo de perucas, recorrem a qu\u00edmicos agressivos para \u201cdomar\u201d a juba, sonham com cirurgias pl\u00e1sticas para afinar o nariz ou clarear a pele. <\/p>\n\n\n\n<p>Outros recorrem a cremes de branqueamento, deixam de cuidar do cabelo natural ou vivem sob o peso de coment\u00e1rios racistas disfar\u00e7ados de conselho: n\u00e3o vais desfrisar? Est\u00e1 feio assim, cabelo crespo n\u00e3o pode ficar solto, assim no ar d\u00e1 mau aspecto. S\u00e3o frases que parecem banais, mas que carregam s\u00e9culos de rejei\u00e7\u00e3o e ensinam, desde cedo, \u00e0s nossas crian\u00e7as que aquilo que elas s\u00e3o precisa de ser corrigido.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse mesmo racismo enraizado aparece at\u00e9 no modo como olhamos para os nossos pr\u00f3prios filhos. Casais negros sonham em ter filhos mais claros, e quando uma crian\u00e7a nasce de pele escura \u00e9 recebida, como se fosse um infort\u00fanio. Usamos express\u00f5es como \u201cmorena\u201d, \u201cmulata\u201d, \u201cminha clarinha\u201d, \u201cbom ventre\u201d, ou frases como \u201cgra\u00e7as a Deus n\u00e3o saiu t\u00e3o escuro como o pai\u201d. S\u00e3o palavras que parecem elogio, mas que carregam a mensagem dolorosa de que ser negro \u00e9 sinal de inferioridade, de que a pele escura \u00e9 um defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto disso nas fam\u00edlias \u00e9 devastador. Filhos e filhas crescem a observar esses comportamentos e aprendem que, para serem amados e aceites, precisam de negar ou esconder quem s\u00e3o. \u00c9 um ciclo de dor, em que adultos feridos, sem querer, passam a mesma ferida para as gera\u00e7\u00f5es seguintes. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas como ensinar os nossos filhos a se aceitarem se n\u00f3s, adultos, ainda fugimos de n\u00f3s pr\u00f3prios? As crian\u00e7as aprendem muito mais com o que v\u00eaem do que com o que ouvem. Uma m\u00e3e que assume o seu cabelo natural, um pai que fala com orgulho da sua cor, uma fam\u00edlia que valoriza a sua origem oferece uma li\u00e7\u00e3o de dignidade que nenhum discurso consegue igualar.<\/p>\n\n\n\n<p>Educar para o amor pr\u00f3prio come\u00e7a dentro de casa, mudar a linguagem no dia a dia, eliminar piadas e apelidos pejorativos, oferecer livros, filmes e bonecas que reflictam a beleza negra, contar a verdadeira hist\u00f3ria dos povos africanos, que vai muito al\u00e9m da escravid\u00e3o: reis, rainhas, sabedoria, cultura e resist\u00eancia. O caminho da cura come\u00e7a no reconhecimento. \u00c9 preciso admitir que carregamos feridas, que herd\u00e1mos uma mentalidade que ainda nos faz rejeitar o espelho. S\u00f3 podemos curar aquilo que temos coragem de nomear.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, come\u00e7ar a resgatar a espiritualidade, recordar que fomos criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus e que cada tra\u00e7o do nosso corpo tem valor, educar os filhos para questionarem os padr\u00f5es de beleza impostos e para celebrarem a diversidade como riqueza, n\u00e3o como defeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Aceitar-se n\u00e3o significa que n\u00e3o possamos usar perucas, mudar o cabelo ou cuidar da apar\u00eancia. A diferen\u00e7a est\u00e1 na inten\u00e7\u00e3o, quando esses gestos se tornam m\u00e1scaras para esconder quem somos, estamos a negar a nossa identidade. A verdadeira liberdade nasce quando j\u00e1 n\u00e3o precisamos de fugir do espelho. Aceitar-se \u00e9 rebelar-se contra uma hist\u00f3ria que tentou nos convencer de que n\u00e3o \u00e9ramos suficientes. \u00c9 um acto de coragem, de cura e de liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, no fim, n\u00e3o h\u00e1 beleza maior do que viver a verdade de ser exactamente quem Deus nos criou para ser.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por:<\/strong> Elis\u00e2ngela Chissamba<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns meses atr\u00e1s a advogada zambiana Naomi Pilula partilhou uma fotografia nas redes sociais e, em poucos segundos, foi alvo de coment\u00e1rios horr\u00edveis e depreciativos. 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