Onde não se ora em nome de Cristo
E se depende apenas do Deus que habita em ti?
Cada crença, dentro de um sistema religioso, está ligada a um ser que é apresentado como o salvador e libertador, quando o crente passa por dificuldades.
Quando um cristão se vê livre de um problema,que lhe parecia impossível resolver por conta própria, acreditava que houve a intervenção de Cristo em seu apoio. Doenças, acidentes graves, dificuldades financeiras ou outros males da humanidade são, para o cristão que se sente incapaz, um problema que só Cristo consegue solucionar.
Quantas vezes terá dito ou escutado a seguinte frase: “ só Jesus para me tirar daquela situação”; Cristo salvou-me daquele acidente”; ou a minha esposa ou meus filhos são bençãos de Cristo”.
Quando ocorrem catástrofes naturais, como as que temos visto em vários países de maioria cristã , os sobreviventes agradecem ao “seu salvador” por os ter afastado da morte. No caso do Nepal, quando as televisões mostraram uma residência que resistiu à invasão do mar de lama, centenas de pessoas, nas redes sociais, escreveram nas usas mensagens que se tratava de mais um milagre promovido por Jesus ou o Deus supremo da bíblia. Alguns, inclusive, compararam com o mito bíblico da Arca de Noé, que sobreviveu ao dilúvio. Mas, esse caso, faz sentido no dilúvio do Nepal?
O Nepal é um país sul- asiático, situado na cordilheira do Himalaia, entre a Índia e o Tibete, que é um território autónomo controlado pela China. Registos históricos e arqueológicos mostram que a sua população ocupa aquela região há cerca de 2500 anos que, desde a idade média desenvolveu-se numa sucessão de reinos, em diferentes dinastias. Desde o seu surgimento, dividiram-se em mais de cem grupos étnicos, com influências da Índia e do Tibete e outros grupos asiáticos. Os Newar, os Sherpa, Tamanhs, Chhetri e Brhaman são os que predominam. Todos formam a chamada cultura Kirati, nome dado também devido a sua religiosidade ancestral.
Há centenas de anos, 80% da sua população é da religião hindu; 10% pratica o budismo( não é religião, mas uma forma de espiritualidade); Islamismo, 5,1%; enquanto outros pequenos grupos dedicam sua espiritualidade aos cultos ancestrais, o Kirantismo 3%; cerca de 1% é cristã.
Nas cidades afetadas pelas inundações, viviam e trabalham pessoas das diferentes religiões, sendo a sua maioria, praticantes do hinduísmo. Por esse dado demográfico, torna-se forçado atribuir a um único ser-salvador o talento de manter vivos os sobreviventes.
Muitos disseram que se tratava da residência de um pastor evangelico, para justificar a permanência da estrutura, porém, muito cedo foram desmentidas. Especialistas alegam que a casa se manteve em pé por ter boas fundações.
A residência que sobreviveu pode ser de uma família hindu, que mais ocupa a cidade, budista, islâmica, cristã ou kirantista. Com isso, pode ser que seus ocupantes creiam ter sido poupados pelos deuses hindus, como Brahma, Vishnu, Khrisna ou Shiva. Aliás, para os hindus, Vishnu é a divindade da salvação e da proteção do universo.
Provavelmente, na óptica dos budistas, pode tratar-se de um novo ciclo, ao que chamam de Nirvana, considerando que o budismo não é uma religião nem cultuam uma divindade. Buda não é Deus, mas título atribuído às pessoas que atingem um alto nível de espiritualidade e não de religiosidade( termo semelhante a Cristo, que serviu para vários homens antes e depois de Jesus). No budismo, o Nirvana é a condição que uma pessoa atinge depois de ter passado por vários renascimentos.
Os kirantistas podem ter acreditado que as forças da natureza salvaram as milhares de vidas resgatadas. Eles não têm templos nem divindades, mas voltam-se para seu interior, como o sagrado que se une a natureza.
Para o menor grupo daquela população de sobreviventes e suas famílias que aguardavam por “boas novas”, os milagres foram feitos por Cristo.
Aquela família poder pertencer a qualquer um desses grupos religioso.
Nas entrevistas divulgadas pelos canais de televisão, as fontes que agradeciam por um resgate bem sucedido, referiam-se, maioritariamente, às divindades das culturas asiáticas. Quando um grupo de trabalhadores de uma central hidroelétrica foi resgatado de uma gruta, nove dias depois das inundações, Sanjay Shah, de 30 anos, disse que sobreviveu ao sofrimento, porque passava os dias a entoar mantras hindus. Mantras são palavras, frases ou orações repetidas em formas de cânticos na religião hinduísta, para vários fins.
Obviamente, os seguidores dessa religião reforçaram a crença nas suas divindades depois desse relato da própria vítima salva.
Num único cenário, com os mesmos personagens, vítimas da mesma catástrofe, diferentes grupos religiosos clamam e agradecem por salvadores diferentes. Qual dos deuses atua e a favor de quem? E quem salva os que não se curvam por divindade alguma, como os budistas e os kirantistas resgatados?
Não seria arrogância atribuir todas as coisas boas à uma única fonte?
Nesse luta de protagonismos para definir quem é o verdadeiro salvador, uma questão pode encerrar o debate: porque essas divindades permitem a morte de alguns de seus protegidos e salvam uma pequena parcela? Que males fizeram crianças, adolescentes e seus pais para merecerem a falta de proteção de quem sempre pediram a guarda? Vale lembrar que, dentre os mortos,centenas estavam em igrejas e templos em oração e alguns em dormitórios de igrejas.
Caso semelhante ocorreu no terremoto de 1755, em Lisboa, Portugal, quando os tremores que devastaram a capital mataram mais de 50 mil pessoas. O curioso desse triste acontecimento deve-se ao facto de ter sido no dia 1 de novembro, o Dia de Todos os Santos, maior celebração católica. Mais ainda, a maioria das vítimas mortais estavam na em igrejas, em oração, quando foram surpreendidas pelos abalos que destruíram templos e outras centenas de edifícios ao redor.
Por: Miguel Manuel
Jornalista e pesquisador

