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SERÁ QUE A BANCA CRESCEU COM A RETIRADA DO DINHEIRO VIVO NA RUA?

Houve um tempo, não muito distante, em que o dinheiro vivo circulava em Angola com uma intensidade quase inquietante. Notas dobradas nos bolsos, sacos plásticos recheados de kwanzas, pagamentos feitos exclusivamente em numerário. Até os Salários eram pagos a mão. A economia respirava em papel. O volume de dinheiro fora do sistema bancário era tão elevado que assustava os analistas e desafiava qualquer tentativa de controlo monetário.

Depois vieram as reformas. Restrições ao levantamento de grandes quantias, incentivo aos pagamentos electrónicos, expansão dos Terminais de Pagamento Automático (TPA), maior vigilância sobre fluxos financeiros. O dinheiro começou a regressar aos bancos. As estatísticas passaram a mostrar crescimento dos depósitos, aumento de activos, melhoria dos rácios de liquidez.

A BANCA CRESCEU.

Mas a pergunta que ecoa é simples e desconfortável: cresceu porque a economia produziu mais ou cresceu porque o dinheiro deixou de circular fora do sistema?

Se o dinheiro agora circula maioritariamente na economia formal, por que razão a informalidade continua tão viva, tão resiliente, tão dominante em alguns sectores?

Basta visitar qualquer mercado informal para perceber que a realidade é mais complexa do que os relatórios sugerem. Quase todas as vendedores têm TPA. Se não tiverem, há sempre um agente informal bancário por perto, alguém com uma máquina multicaixa na mão, disposto a fazer a ponte entre o cliente e o dinheiro vivo, mediante uma comissão percentual. O cliente transfere, o agente entrega notas. A economia adapta-se. Formaliza-se parcialmente, mas preserva a sua lógica própria.

É um fenómeno curioso. A tecnologia bancária penetrou no mercado informal, mas o mercado informal não desapareceu. Pelo contrário, modernizou-se. Hoje há peixeiras que aceitam cartão, vendedores ambulantes que operam com transferência instantânea ( EXPRESS), jovens empreendedores digitais a vender nas redes sociais com pagamento electrónico. A informalidade deixou de ser sinónimo de ausência de sistema bancário. Ela agora convive com ele.

ENTÃO ONDE ESTÁ, DE FACTO, o CRESCIMENTO DA BANCA?

Uma parte vem, sem dúvida, do aumento de depósitos provocado pela redução do dinheiro vivo na rua. Outra parte vem da expansão dos serviços digitais, das comissões, das transferências e da intermediação financeira. Mas há uma questão que precisa ser colocada com serenidade: terá a banca privilegiado o financiamento ao Estado, através da compra de títulos do Tesouro, em detrimento do financiamento à economia produtiva?

Emprestar ao Governo é seguro. O risco é menor, o retorno é previsível, a garantia é soberana. Financiar pequenas e médias empresas exige análise, acompanhamento, exposição ao risco real do mercado. Entre a segurança e o risco, muitos bancos escolhem a estabilidade.

Isso ajuda a explicar um paradoxo. O sistema bancário fortalece-se, mas a economia real não acelera na mesma proporção. A informalidade mantém-se alta porque milhares de cidadãos continuam fora do crédito estruturado, fora do financiamento acessível, fora das oportunidades formais de crescimento.

A informalidade não é apenas uma escolha cultural. Muitas vezes é uma resposta à burocracia, à carga fiscal, à dificuldade de acesso ao crédito e à complexidade regulatória. Quando abrir e manter um negócio formal se torna caro e lento, o cidadão opta pelo caminho mais simples para sobreviver.

Talvez o verdadeiro desafio não seja apenas retirar dinheiro vivo da rua. Talvez seja criar condições para que o dinheiro, já dentro do sistema bancário, circule para a produção, para a agricultura, para a indústria, para as pequenas empresas que empregam a maioria dos angolanos.

Algumas sugestões impõem-se de forma quase natural. Expandir linhas de crédito específicas para o sector produtivo com garantias partilhadas pelo Estado. Reduzir taxas de juro para actividades estratégicas. Simplificar processos de formalização empresarial. Incentivar a literacia financeira nos mercados informais, transformando vendedores resilientes em microempresários estruturados. Criar programas de microcrédito verdadeiramente acessíveis, com acompanhamento técnico.

A banca cresceu, sim. Mas crescimento financeiro não é, por si só, desenvolvimento económico. O sistema tornou-se mais líquido, mais digital, mais controlado. No entanto, enquanto a economia real não sentir esse crescimento no acesso ao financiamento e na criação de oportunidades, a informalidade continuará a florescer, adaptando-se a cada nova regra.

O dinheiro pode ter regressado aos bancos. A questão agora é saber se os bancos irão devolvê-lo à economia na forma de investimento produtivo.

Se isso acontecer, não apenas a banca crescerá. Crescerá também o país.

Por: Gaspar João
Jornalista

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Redacção
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