Cabo Verde perdeu neste sábado, 29 de agosto de 2026, uma das suas vozes mais marcantes. Carlos Alberto Pereira Lopes, conhecido artisticamente como Bino Branco, morreu nos Estados Unidos, aos 56 anos, onde estava em tratamento de uma doença oncológica desde 2025.
Nascido a 29 de dezembro de 1969, na cidade da Praia, Bino Branco começou a carreira em grupos juvenis. Destacou-se como vocalista principal do Grupo Djassy antes de viver um tempo na ilha Brava.A viragem veio em 1996, quando fundou os Ferro Gaita junto com Eduíno e Paulino Preto.
O grupo nasceu com um propósito claro: recuperar a sonoridade tradicional do funaná, numa época em que teclados e eletrónicos dominavam o género.
O primeiro disco, “Fundu Baxu”, lançado em 1997, fez sucesso em Cabo Verde e na diáspora e marcou o regresso do ferrinho e da gaita ao centro do funaná. Ao longo de mais de 30 anos de carreira, Bino Branco tornou-se inseparável do ferrinho.
Com ele, ajudou a devolver protagonismo ao instrumento tradicional de Santiago, ao lado da gaita. A sua imagem ficou tão ligada ao ferrinho que é hoje referência quando se fala do instrumento na música cabo-verdiana.
Com os Ferro Gaita gravou sete álbuns originais, fez digressões pela Europa, África e América, colaborou com outros artistas e lançou também trabalho a solo. Dedicou ainda parte do percurso a promover outros ritmos de Santiago como batuku e tabanka. Reconhecimento e últimos anosEm 2007, os Ferro Gaita receberam a Medalha Nacional de Mérito Cultural.
Em 2024 o grupo assinou protocolo com o Ministério da Cultura para a preservação do funaná como património imaterial nacional. A doença de Bino Branco tornou-se pública em 2026. Em junho, o Governo de Cabo Verde aprovou-lhe uma pensão mensal de 75 mil escudos, cerca de 680 euros, devido à impossibilidade de continuar a trabalhar e pelo contributo prestado à cultura.
Estava nos EUA desde 2025 para tratamento. O grupo lamentou a perda do “grande amigo e irmão”. O percussionista Manel di Tilinha descreveu-o como “divertido, alegre e que levava a vida na simplicidade”.
O Ministério da Cultura, Indústrias Criativas, Juventude e Desporto expressou “profundas condolências”. Nas redes sociais, familiares, músicos e fãs publicaram mensagens de pesar e homenagem na noite de sábado.
Para muitos, Bino Branco foi mais do que vocalista. Foi um dos nomes que ajudaram a internacionalizar o funaná e a manter viva a sua matriz tradicional.Bino Branco deixa um legado de música, identidade e resistência cultural. A sua voz e o seu ferrinho marcaram gerações e levaram o nome de Cabo Verde muito além das ilhas.

