Angolano Hélder Luciano Ricardo, mais conhecido por Morenasso Crack — “The King of Kizomba”, é natural do Cuanza-Sul e vive há mais de duas décadas em Paris, onde construiu uma carreira que o tornou numa das referências mundiais da dança angolana.
Director da escola Sensualonda — Casa dos Artistas, organizador de festivais internacionais e embaixador cultural de Angola em cada palco onde pisa, Morenasso Crack é o retrato de quem apostou tudo numa paixão e venceu.
Uma trajectória marcada pelo talento e pela garra
O percurso de Morenasso Crack não começou nas pistas de dança, mas sim nos relvados. Cresceu em Luanda, numa família com raízes profundas no Cuanza-Sul, e foi o amor do pai pelo futebol “um autêntico benfiquista”, recorda com afecto — que o levou às primeiras balizas.Ingressou na Escola Joka Sport, considerada a primeira escola de futebol de Angola, e, mais tarde, na FESA -Fundação Eduardo dos Santos.
O talento foi reconhecido: integrou a Selecção Nacional Sub-17, sob orientação do professor Joaquim Diniz, e chegou à Sub-20 com o professor José Kilamba, onde se destacou como melhor guarda-redes.“Integrar uma selecção não é fácil.
É preciso ter talento e cabeça. Eu sempre fui uma pessoa com muita vontade de concretizar aquilo que idealizo”, afirma.
A decisão de sair de Angola
Em 2002, deixou Angola com um único propósito: tornar-se futebolista profissional. A oportunidade surgiu através do seu manager, António Kavungo.
O percurso europeu foi intenso: realizou testes no Sporting de Braga e no Benfica, em Lisboa; passou por Tenerife, em Espanha; participou num campo de treino do Ajax, na Holanda; e, finalmente, fixou-se em Paris, onde o Paris Saint-Germain o integrou na equipa B. Mais tarde, pelo Paris FC, contribuiu para a subida ao campeonato nacional francês.
O sonho parecia próximo até surgirem as lesões.
De guarda-redes a rei da Kizomba: uma vida reinventada
No final de 2007, uma rotura muscular no ombro afastou-o dos relvados. Uma segunda lesão no mesmo local acabou por encerrar definitivamente a carreira no futebol.
Embora sempre tenha gostado de dançar — “desde criança, nunca fui de ficar num cantinho”
foi em 2008, com a expansão da Kizomba na Europa, que tudo mudou.Participou na competição “África a Dançar”, ao lado da bailarina Anaïs Milon, e sagrou-se campeão de França. Na final, em Lisboa, a dupla terminou na quarta posição, mas o impacto foi imediato. Entre 2008 e 2009, nascia a carreira de Morenasso Crack.
Sensualonda — Casa dos Artistas
Após anos de percurso internacional, nasceu, em Outubro de 2024, a Sensualonda — Casa dos Artistas, em Rueil-Malmaison, nos arredores de Paris.“Qualquer angolano que venha a Paris já tem um lugar onde passar”, explica, comparando o espaço ao papel do clube Mangolé, em Lisboa.Na escola, são leccionadas várias modalidades, como Kizomba, Semba, Afro House, Tango, Salsa, Bachata, Rock e ainda o Afro-Kids, uma vertente dedicada às crianças.

